
Ultimamente, dei por mim a relembrar o início do soneto de Camões ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’… não, não foi por acaso, foi uma percepção do mundo em que vivemos hoje, um mundo ávido de consumir a vida, sem párar para a viver.
Do soneto, não foi aquele primeiro verso o que me despertou a reflexão, mas sim «todo o mundo é composto de mudança». Porque se num primeiro instante a minha reação ao que vejo, e ouço, e assisto do mundo fora da minha casa é de consternação e de indignação até (sim, admito), emoções tão comuns e características das pessoas para lá dos seus 50 anos, a verdade é que a minha segunda reação foi a de questionar se realmente é mudança ou a lei do eterno retorno.
Será mudança ou eterno retorno?
Para nós, animais da espécie humana cuja esperança média de vida ronda os 74 anos (Worldmeter, a nível global), os fenómenos da natureza e factos do quotidiano são entendidos numa escala de tempo linear. Ora, acontece que a escala do universo é outra, é a do tempo cosmogónico no qual a matéria e a energia não se criam, nem se perdem, reconfiguram-se.
O cosmos move-se em ciclos de expansão, colapso e renascimento, e tudo nele o acompanha, desde os sistemas mais complexos aos bichinhos mais simples da Terra. Uns em ciclos mais longos, outros em ciclos curtinhos (quanto tempo viverá um mosquito?).
Os nossos antepassados pré-históricos perceberam esta dinâmica: olharam em redor e viram que dia após dia sol nascia e desaparecia, que estação após estação vinha o frio, a neve, o degelo, as flores, o calor e seca, e por aí fora. E foram registando tudo, em desenhos toscos nas paredes de grutas, depois em lápides, em rolos de papiro e folhas de papel.
Algures na História da Humanidade, nós, os seres ditos inteligentes, desviámo-nos desta rota e decidimos existir numa dimensão completamente irreal, ou surreal, em que a vida se leva numa linha crescente de nascimento, crescimento, maturidade e morte, onde a mudança significa uma disrupção ou “fazer diferente” e tudo tem de ser rápido, fugaz, éfemero.
Nas cosmogonias e filosofias (deixemos o conceito de religião de fora) de todas as civilizações, das pré-históricas às clássicas, o tempo não é uma linha que caminha para um fim, mas uma roda. Veja-se a ideia de reencarnação, da transmigração das almas ou da ressurreição: é uma interpretação do ciclo do cosmos. Em Latim, havia a palavra revolutio, derivada do verbo revolvere que significava “volver para trás”, “fazer girar” e que remetia para um movimento circular de regresso ao ponto de partida.
Então, e será mudança ou eterno retorno?
Para mim que cursei História e que a entendo como a Psicologia da humanidade, que sou cristã e sinto e entendo Iavé como «Manifestarei Ser» (no hebraico), o mundo «gira e avança» no movimento de eterno retorno. Aquilo que se vive hoje em dia já foi vivido noutras épocas - embora em nuances diferentes, claro - e os fenómenos naturais inserem-se dentro de ciclos que demoram milénios a expandir para regressar ao ponto inicial.
Posto isto, e depois de tanta “conversa”, a verdade é que humana como sou não deixo de me sentir triste e nostálgica: por um lado, saudosa de um passado em que se existia, a natureza e a sociedade, de uma forma mais lenta e conectada à dinâmica do universo; por outro, triste por viver num presente que não reconhece os sinais de colapso e que se precipita nele, inconsciente e irresponsável.
Sandra Marques Augusto
